Quem te influencia?
A crise de prioridades e as garotas cupom
Começo meu dia com um cupom de café termogênico. Depois dele, coloco um look da marca parceira e vou malhar na badalada academia que te dá um mês off no plano anual. Saindo de lá, faço as unhas no salão imperdível onde você ganha 15% off por me acompanhar. Meu almoço? Um lugar incrível que acabou de abrir e você precisa conhecer. No meio da tarde, a jujuba de creatina e meu whey da marca que você já sabe: tem desconto te esperando. Meu carro elétrico é super moderno — passa lá na concessionária pra conhecer esse modelo. No fim do dia, faço uma make com produtos daquela loja chique do shopping e saio pra jantar com a nova coleção de botas da Fulana.
Não sei de onde tiraram que ser influenciadora é só disponibilizar cupons e descontos. Mas essa é a realidade. A rotina incansável de quem parece que nunca lavou uma louça ou esfregou a axila da camiseta no tanque. A cada story, me sinto mais desconectada dessa versão de mundo. E me pergunto: será que sou diferentona demais por odiar a ideia de vender coisas que ganhei de graça?
Assumo aqui meu papel de desinfluencer, e rasgo diante de você a carteirinha do clube influs de internet. Nunca fui muito fiél ao clube, pra ser sincera. Entendo que a internet criou esse novo emprego, onde os mais corajosos e desenrolados são porta voz de marcas, pra que elas alcancem cada vez mais pessoas que se identificam com os valores que elas promovem. E longe de mim julgar ou até sofrer da hipocrisia de falar mal, quando já bebi e ainda bebo nessa fonte diariamente, mas me pergunto onde estão as influências responsáveis? As que vendem marcas nas quais acreditam de verdade, mas que, no intervalo comercial entre uma publi e outra, também trazem inspiração de vida, e não só de consumo? Gente que joga luz nas sombras. Que me faz querer ser melhor. Que me ampara em sentimentos que pareciam solitários ou que me colocam no caminho de renovar energia. Onde vivem essas pessoas que querem influenciar pra plenitude, e não pra abrir carteiras em troca de permutas baratas? Ou será que todo mundo caiu na graça da mercantilização do wellness?
Se você não entende como funciona o mundo da influência e tem dado palco pras garotas cupom achando que elas vêem verdade em tudo que mostram, deixa eu te contar como é o “por trás das cortinas”.
Tem cupom pra sua felicidade? Tem cupom pra bem-estar? Tem cupom pros seus sonhos?
Foi-se o tempo em que as marcas pagavam bem por um post ou story. Hoje o modelo dominante é o de afiliação (mesmo quando dizem que “não é bem isso”). Você recebe o produto em casa, posta toda semana, entrega vídeos em collab nas redes, autoriza o uso da sua imagem em anúncios pagos. Em troca? De 5 a 10% do valor de cada venda feita com o seu cupom. Ou seja, você vira vendedora nas suas redes, de marcas de terceiros. E passa a acreditar que quanto mais marcas, mais cupons, mais relevante ne esfera digital você será.
“Ah, Thamires, mas qual o problema nisso?”
O maior problema está no mercado: ele acha justo te pagar com um produto de R$ 100 por um stories ou vídeo que demanda câmera boa, roteiro, captação, edição e coloca a sua credibilidade em jogo — pra vender um supérfluo pra alguém que talvez vá se endividar pra comprar.
Isso não é um emprego? É sim. O mercado se profissionalizou, mas agora ninguém quer pagar.
A “parceria” funciona porque você aceita receber produto de graça pra fazer ele soar incrível em troca de 10 reais por pessoa que comprar. Quando o produto faz sentido pra sua vida, você ama ele, acredita nele, tudo isso soa tão natural, que de fato, existe menos trabalho em criar essa atmosfera de venda. Porque na verdade quando assumimos que todos somos influenciadores pra outras pessoas, entendemos que isso nada mais é que partilhar experiências positivas com os outros, pra que eles vivenciem o mesmo que você. Seja indicando uma aula pra sua mãe, um terapeuta pra sua amiga, um suplemento que te ajudou de verdade, a sua nutri que foi uma grande aliada nos seus objetivos.
Agora, é possível que tudo na sua vida seja uma publi? Tudo é relevante e te toca profundamente a ponto de você ter cupons e parcerias o tempo todo pra sua comunidade? Isso é se tornar relevante? Todas as marcas, o tempo todo, são válidas pra que você pregue a palavra por ai? Eu acredito que não.
E fica aqui o disclaimer: você não precisa concordar comigo!
Quando você passa a ser um outdoor ambulante, tudo que você é, como pessoa influente, se resume a inspirar as pessoas a consumir por consumir, pra que você siga tendo acesso à novas marcas e chancele sua validação externa como uma influencer. Fica a dica de leitura dessa news da Thais Farage que é certeira quando explica porque a nova geração investe tanto em fazer publi, como uma forma de validação desse papel no novo emprego do momento. E também dessa aqui onde ela fala de relevância não ser sobre estar no auge o tempo todo. Existem sim influenciadoras que estão nadando de braçadas sozinhas nesse oceano, pessoas que tem cupom pra caramba mas que com maestria trazem conteúdos de profundidade, humor, conhecimento. Que misturam muito bem as vendas com a influência de vida. Quer um exemplo disso? A Marieli Mallmann segue sendo minha influencer preferida exatamente por essa atuação, mesmo parceira de marcas gigantes como Renner, ela tem conteúdos de reflexão, livros, viagens e liberdade feminina.
O que pesa a longo prazo, é o fato de que não existe pensamento responsável com nada. Não tem como o mundo todo comprar a cada semana um lançamento de blush, e você só tem duas bochechas amiga! Não sei como é a sua vida, e não tô julgando, mas eu mesma nem tenho onde ir em uma semana com 5 blushes diferentes, sabe? Usando um por dia? Isso faz sentido? Eu não sei, mas sei de uma coisa: não tem aterro que caiba a quantidade de moda que dura 30 dias e depois cai na breguice e ninguém quer usar! Estamos consumindo 60% a mais do que no passado, e esses dados são de 2023, antes do boom da Shein e outras. Você comprou quantas roupas no ano passado que estão paradas no seu armário, não fazem o seu estilo e são resultado de uma compra por impulso? Eu tenho no mínimo duas dessa, quem dirá as pessoas que são profundamente afetadas pelos anúncios e influências. Você já comprou algo caro e tentou vender depois? Quando comecei a correr eu comprei um tênis do meu número pra depois descobrir que pra corrida se usa um número maior, ja que o pé dilata. Ou seja, ficou apertado e eu tentei vender mas queriam me pagar menos da metade, e eu só usei uma vez! No mundo da moda, o usado perde mais valor que carro zero saído da concessionária. Você acaba doando o que não usa, mas e o seu tempo e esforço pra trabalhar e comprar aquilo? Essa conta sai tão cara.
Hoje em dia quando vou comprar qualquer coisa, eu penso que preciso amar, precisar ou querer muito, porque sejam lá quantas horas de trabalho esse produto demande de mim pra bancar essa compra, o que me custa mesmo é não ver meus filhos, não namorar meu marido, não estar em casa, não cuidar da saúde, não usufruir da vida. O dinheiro pelo dinheiro não é preço, e sim valor! Se engana quem acha que a tal “energia do dinheiro” que os coaches financeiros falam é sobre gastar mais pra ganhar mais. Ou que “emanar abundância” é ser consumista inconsequente. Se você convive com ricos e milionários percebe que eles não gastam a torto e à direito, a não ser os ganhadores da mega. Olha que contraditório! Na cabeça da maioria das pessoas, quanto mais se ganhar, mais se poderá gastar. Só que na prática, você adquire maturidade pra entender que muita coisa simplesmente não vale a pena. Não porque você tá ali contando moeda na conta bancária, mas justamente porque dinheiro vem e vai, mas todo o resto não. Então porque damos tanta moral pra esses perfis que seguem vendendo tudo que é possível pra gente?
A conexão
Todo mundo prefere comprar algo que tem referência de quem confia. A partir do momento que você estabelece uma relação de confiança com essa pessoa, por muitos motivos, fica mais a vontade de gastar seu dinheiro porque alguém gastou antes e te assegurou que vale a pena!
Prova social
Sabe quando uma marca lança alguma coisa que todo influencer recebe junto e isso cria um efeito na gente de “nossa, ta todo mundo consumindo ou falando disso”? Nós imitamos as ações das pessoas, porque elas são nossos guias de comportamento. E se mais de um infuenciador que eu acompanho está falando bem desse lançamento, eu fico mais propensa a comprar porque confio neles e porque esse efeito gera medo de estar perdendo a novidade.
Persona modelo
Todo mundo tem uma persona que julga ser ideal. Aquela que acreditamos que podemos ser se tivermos mais tempo, mais dinheiro, mais disciplina. Aquela musa que uniu na própria vida aquilo que eu mais gosto e acredito. Um modelo inspiracional de identidade! Quando essa pessoa é a minha referência, todo produto que ela me apresenta e eu posso ter, me coloca mais próximo desse ideal. É a nossa noção de pertencimento da identidade que admira e busca ser. E nisso, o capitalismo afeta de forma direta, porque acreditamos que ter é ser.
E se essa relação vira apenas comércio?
Se você tem um perfil de influência, é uma pessoa inspiradora, sua forma de ver a vida e levar a rotina me gerou conexão, porque você transformou seu conteúdo em um outdoor? Nossa relação de confiança deixa de fazer sentido. Se todo mundo recebeu ao mesmo tempo pra falar daquilo, eu me esqueço que não preciso, acabo cega com desejo de não ser a única a não ter aquela novidade. Que ser humano tem essa racionalização de resistir porque entendeu a manobra do mercado? A construção foi feita pra gente ceder! E aí vem a persona modelo, se a minha referência me entrega descontos diariamente, tenho tantas possibilidades de ser, ao ter aquilo que ela me vende. O tal caminho fácil pra tudo que na realidade dá trabalho.
Você segue aquela mãe inspiradora, que escreve bilhetes na lancheira, faz a comida do zero, leva na escola, comparece a todos os eventos e esportes, faz pratos coloridos com bichinhos, tudo isso trabalhando fora. Ela é sua musa, sua lembrança diária de que você pode ser essa mãe também! Um dia ela vende as lancheiras coloridas pra você com o cupom da marca parceira, e você compra, porque a lancheira vai fazer você se sentir uma mãe mais presente, mais parecida com ela, mas você segue ausente mesmo, porque ser presente não veio com a lancheira, não é mandar lanche caseiro, mas talvez seja sim sair do celular pra olhar no olho, pra criar mais tempo pra ser aquela mãe que você tanto deseja no seu íntimo. Entende o paradoxo? A gente está vivendo em uma roda que alimenta nossos ideais, mas rouba nosso tempo pra construir eles.
Talvez me reste mesmo as pazes com o fato de que serei uma grande desinfluência digital.
Amo compartilhar o que me move, me toca, me alegra. Mas sei que meu conteúdo não gira em torno de engajamento. Não consigo vender tudo, todo dia, só pra ganhar produtos que nem compraria com meu próprio dinheiro. E volto na minha hipocrisia: tenho cupom e vou postar eles, mas felizmente não resumo minha atuação de influência ao consumismo desenfreado. Inclusive, cansei de recusar propostas que não fazem nenhum sentido, e sigo sem a busca de validação dessa profissão. Sem querer eu virei infuenciadora, não foi um caminho trilhado, um emprego que investi. Me foi natural porque compartilhar sempre foi espontâneo pra mim, e eu gosto demais de indicar o que me faz bem, mas pra minha sorte, a maioria das coisas que me emociona não tem cupom.
Troco qualquer venda pelas mensagens das mulheres que me seguem, que se inspiram em recortes da minha vida e trilham um caminho de auto cuidado e presença. Tenho cupons? Sim, e pretendo usá-los, porque é super legal estar com marcas que eu já gasto meu amado cartão de crédito, que admiro e que me trazem alguma felicidade de consumo, afinal, não sou uma monge no Tibete. Somos livres pra sermos contraditórios também, porque somos muitos internamente, mas somos inteiros quando somos responsáveis e presentes nas nossas escolhas. E isso tá bom o suficiente pra eu dormir igual neném a noite toda.
E agora? Quem você permite que te influencie? Como modelamos o mercado se estamos viciados em ver unboxing e compras de Shein? Qual a manobra pra que internamente a gente reajuste as prioridades a todo instante, sem ceder pra essa engrenagem perfeitamente construída, onde nós influenciadores continuamos a vender por busca de validação e relevância, e você que assiste compra por achar que é genuíno? Sugestões?
Mas nada aqui é pra ser levado a sério né? Tudo não passa de um devaneio.
Beijos, até já.



Texto maravilhoso, faz pensar bastante! Tenho andado mais afastada das redes sociais badaladas justamente pq não tenho mais saco pro monte de cupons e vidas "perfeitinhas" que tem por lá, fora o tempo q eu perdia rolando o feed e a sensação q perdi meu dia sem saber com o que, parecendo que o tempo estava passando muito rápido e que não conseguia fazer as coisas q eu quero e gosto porque nunca tinha tempo pra elas.
Adorei demais o texto! Me tocou de um jeito profundo. Muito bem escrito, inspirador de verdade ✨ Dá aquela vontade de guardar o texto para sempre estar relendo. Parabéns pelo trabalho!