Parabéns pra você
O único que você vai ganhar hoje
Quando comecei a escrever os devaneios, eu buscava com muita força tirar o meu trabalho do centro da minha vida. Parar de querer validar a minha existência pelo aplauso da carreira, pra provar que eu tinha valor pro mundo, pra minha mãe, pra mim. A verdade é que esse molde é de fábrica, não é exclusividade minha. Quantas vezes você não conhece alguém novo e a primeira pergunta que você faz é “com o que você trabalha?”. A gente aprendeu a ser nesse mundo, atrelado ao nosso fazer pro mundo. Ser é verbo de ligação, ele une você à uma característica ou estado. Pra ser, é preciso de movimento, construção, esforço, mas isso só tem palco hoje em dia, se atrelado à carreira.
A gente se define pela nossa “utilidade” nesse mundo. E entenda aqui como a utilidade que o capitalismo move nossos corpos, não a utilidade da nossa potência criativa, não a utilidade da nossa servidão ao próximo, não a nossa utilidade com habilidades e dons nos dado nessa vida. Porque são coisas completamente diferentes! Enfim, passei meses lendo livros, artigos, conversando com minha irmã, maridão e minhas amigas e fazendo terapia a cada semana pra me livrar da necessidade de me reconhecer Fotógrafa de Comida. Assim mesmo, em letras maiúsculas como se fosse um título da realeza, uma identidade. Parece piada, mas é muito real! Eu que sempre defendi que podia ser muitas, trabalhava dia e noite pra me definir uma só. Minha primeira impressão era que eu usava a carreira como uma fuga, pra não ser definida pela minha maternidade precoce, ou porque a minha carreira foi uma das coisas mais libertadoras pra minha maternidade precoce. Uma dava força pra outra, mas sobretudo, um grande medo de ser definida tão nova como dona de casa e mãe, uma menina de 22 anos cheia de sonhos e planos reduzida ao papel feminino mais importante mas ao mesmo tempo o mais desafiador. Eu queria ser muitas coisas antes de ser isso, mas não tive tempo. E talvez se você mãe, que me lê nos seus 30 e poucos, começando agora a sua jornada na maternidade, não vai conseguir acessar esse lugar, porque você teve uma década de egoísmo onde pôde se dedicar a si mesma indiscriminadamente e melhor ainda: beber da fonte da vida da forma como bem entendeu. Se você tem filhos aos 20, você não tem repertório e não faz nada sem pensar trinta vezes. Além disso, você perde uma janela importante de auto conhecimento: não tem viagens, baladas, compras de blusinhas espontâneas, cagadas financeiras, mergulho no que ama (você nem sabe direito o que ama). Você é obrigada a ser responsável rápido, por você e por todos. Sua vida tem horário, regras, protocolos. Você ganha filhos, culpa e um roteiro, que por mais que você tente ser disruptiva, e eu fui, ele ainda assim te puxa pro centro.
E é preciso uma força descomunal pra seguir carreira com crianças pequenas, principalmente se você é jovem e sua rede de apoio não se aposentou ou tem tempo pra essa ajuda. Tem um motivo cronológico pelo qual temos filhos ali na casa dos 30: nossos pais e tios estão desacelerando e uma aldeia pode ser criada pra que essa criança e você tenham suporte. Quando você materna jovem, precisa adaptar essa ajuda à realidade das vidas alheias a sua, que estão fervilhando no ápice da idade delas: seus amigos de 20 e poucos caindo no mundo e seus pais e tios desfrutando de mais calma, mais grana e mais presença conquistada. A rede de apoio é um recorte privilegiado, porque depende de tempo, e tempo depende de dinheiro, o que significa que você precisa ter grana pra ter tempo livre e ser o suporte de alguém. Não atoa 35% das mulheres que dão à luz não retornam ao mercado de trabalho em até 10 anos. É difícil encontrar estrutura que faça sentido pra uma mãe deixar seu filho e retornar ao mercado. A conta precisa fechar, e além do desafio afetivo que a gente enfrenta, tem um processo financeiro que precisa ser validado. Sair de casa, transporte, escola/creche, alimentação, ajuda em casa. A soma desses fatores precisa ser menor que seu ganho no trabalho, sem nem incluir o desgaste mental de terceirizar seu filhos, porque esse deixa a conta tão cara que não pode ser incluído. E aqui podemos adicionar o tesão de voltar a se sentir útil, produtiva, capaz. Porque isso também move internamente uma mulher. Quando você consegue equilibrar essa balança, é como se você fosse uma super heroína, mesmo que ninguém saiba. Então navegar uma carreira depois de ser mãe, é como gritar bem alto: estou viva e ainda sou capaz de muitas coisas!
E o que acontece quando você ama gritar e é boa nisso? Quando é produtiva, incansável, tem uma sede de devorar o mundo e aprender? Você se agiganta e a cada tapa nas costas, você se permite se definir como essa grande mulher de carreira, porque o sucesso é mensurável. Elogios, evolução, boas entregas, espaços conquistados? Palpável. Seu filho andar ou comer brócolis? Natural. Não existe mérito seu em uma criança engatinhar, apesar de ser comemorado como a final da copa do mundo. Poder sentir que você se supera, avança, cresce e ainda ganha grana, é como usar uma droga pesada. Como você acha que o capitalismo tá de pé? Você tá ali naquela viagem, no topo do mundo. Se seu nome ganha a praça, se você dá palestras, se é reconhecida, a viagem só aumenta. O nosso ego ama o imediatismo da performance, porque ela dá sabor pro esforço que você faz pra construir algo que não é seu ou que não contribui pra nada de positivo no mundo. Só que no meio dessa loucura eu parei e pensei: eu preciso mesmo disso? Eu desejo esse caminho da grande carreira porque ele é meu ou porque eu não curei uma pá de coisa em mim? Ou ainda: porque precisei me virar sozinha a vida toda e falhar não era opção? É ego ou chamado? Não sei. Só sei que pra além do meu desejo e consciência, também entendi que o sabor que vem com a performance não é do dinheiro, mas o da liberdade. A mulher que não ganha dinheiro é uma refém: de pessoas, situações, lugares e papéis. E como é delicioso ser livre.
Aqui vale o recorte do tempo que cresci: ser feminista por muitos anos era sinônimo de não se submeter a ser apenas dona de casa e mãe, isso chegou a ser mal visto inclusive, já que na nossa sociedade não somos remuneradas pelo trabalho do lar ou maternidade e a falta de uma carreira colocava a mulher em uma posição inferior aos homens. A mulher que não tem autonomia sobre o dinheiro fica a mercê do outro, e se você já passou por isso sabe que não existe situação pior do que a de querer ir embora sem ter pra onde ou como. Moral da história: era preciso diminuir a maternidade pra fazer carreira, isso sim tinha valor pra sociedade. E aqui nem vou expandir pra atualidade, tô te trazendo uma realidade dos anos 2000. Em uma discussão atual a gente ainda vai entrar no embate das trade wifes versus stay home mom's. Traduzindo: “esposas tradicionais” que sustentam um discurso conservador e submisso ao permanecerem em casa e fazerem tudo pela família enquanto seu marido sai para prover, e as “donas de casa” que optaram por não voltar ao mercado de trabalho e fazem uma boa parcela do trabalho doméstico e dos filhos, mas que não se sentem inferiores ou submetidas aos seus parceiros e tomam essa escolha por livre e espontânea vontade, acreditando em equidade de gênero. Ou seja, o que já era visto com maus olhos, ganhou uma versão com esteróides pra problematizar ainda mais a escolha da carreira ou maternidade nos dias de hoje. Claro, em uma conversa onde você só pode ter um ou outro por inúmeros motivos (rede de apoio, retorno financeiro, opção pessoal, crianças divergentes…).
Do ano passado pra cá desacelerei minha empresa, minha carreira. Uma escolha consciente de quem está há 20 anos com uma câmera na mão e há 12 fazendo mkt para restaurantes. Num mundo que avança pra democratizar a tecnologia na palma da mão das pessoas, é muito cansativo ter bagagem mas perder pra quem tem mais likes. Minha profissão depende de muita puxação de saco ou muita exposição. Pra quem diabos estou tentando provar alguma coisa dando corda pra esse sistema? Eu sou só uma fotógrafa em uma engrenagem gigantesca do marketing, que é o leão do capitalismo. Por mais que eu absolutamente ame o meu trabalho, e seja boa fazendo isso, eu me canso muito de antecipar as mudanças do mercado e seguir por cima da carne. E sozinha eu não educo um mercado que cresce com a monetização de conteúdo das vidas alheias, onde todos somos fotógrafos. Eu não sou capaz de nada sozinha ali, mas sabe onde eu mudo tudo com a minha presença? Na minha casa, na vida dos meu filhos, no meu casamento, nas trocas com as minhas amigas. Se eu parar pra pensar, nunca desacelerei antes, tive filho aos 22 e nunca mais me questionei nada, só peguei meu trator e construí tudo na base da força de vontade. Não tive herança de pai e mãe, não tive ajuda financeira mas tive muito suporte de pessoas maravilhosas (amo vocês). E aí esse ano eu gradualmente fui colocando força em respirar. Fui abrindo espaço! Fui engolida as vezes? Claro, não existe nada linear no que tentamos conquistar. Só que eu não contava com um fator gigantesco: o universo. Pode dizer que é papo de tilelê, pode chamar de Deus, escolha por si, mas quando a gente deseja, pede, trabalha: acontece! Não nos seus termos mas nos do mundo. Dito e feito: as portas se fecharam ali, as janelas aqui, outras se abriram e agora a minha vida tem mais espaço pra ser uma versão de mim que tanto quis, e eu não sei o que fazer com isso. E aqui não falo de grana, mas o que fazer quando você precisa se dar o valor por uma nova perspectiva?
Ninguém em uma roda de conversa vai elogiar a família estável e unida que você tá construindo, isso ai não tem valor pro mundo, e parece que nem precisa de trabalho pra ser construído, mas tá todo mundo até hoje de mal em casa por causa das eleições passadas. A estrutura familiar é tão frágil, porque as diferenças são alimentadas, as pessoas estão hiperfocadas nelas mesmas, as relações são mais flexíveis já que todo mundo pode só se divorciar “sem danos", ninguém cede, o respeito se perde e ficou “fácil” descartar as pessoas, e isso inclui a família. A gente finalmente construiu famílias baseadas em afeto, não em obrigação, mas tem um detalhe que quase ninguém fala: o que nasce do amor também depende dele pra continuar existindo. E quando ele falha, não tem contrato social que segure. E o amor é verbo de ação, que exige trabalho. Só que hoje em dia trabalho é um esforço que a gente coloca na vida profissional, na pessoal a gente não é obrigado. Você pode largar pra lá, se ausentar, ir embora, suprimir seus sentimentos, gritar e espantar. Você sabe o trabalho que você precisa fazer na primeira infância de um filho, pra ter um adolescente que te conta segredos e fofocas quando você pega ele na escola? Você acha que mkt digital e algoritmo de instagram são difíceis? Ha Ha Ha. Tente ser firme mas aberta, acolhedora mas que impõe limites, estar presente na rotina mas mantendo o ganha pão da família. E esse esforço, trabalho e dedicação não tem palco. E o que fazemos quando a dedicação vai pra um lugar sem aplauso? A sua nova versão vai precisar crescer a ponto de abandonar esse condicionamento operante, que só se sente motivado com o reconhecimento alheio.
Minha melhor amiga tem uma empresa com mais de 80 pessoas, ela é uma máquina de vencer. Tem um negócio humano, honesto, desgastante pra caramba, mas sabe o que eu faço questão de elogiar, de uma forma absolutamente genuína? Em cada postagem, evento ou oportunidade? Como ela foi e é uma mulher sábia pra educar filhos tão especiais, ser próxima deles mas não uma mãe irresponsável. Ela acha tempo na agenda de carreira pra fazer cerâmica com a filha, sabe? Leva e busca eles em todas as ocasiões. Ela coloca a família no centro. Você acha que alguém acha isso foda? Não, mas eu acho, e você deveria achar também. Você precisa moldar a sua cabeça pra percepção do outro pra além do papel dele no sistema. Você precisa olhar no fundo dos olhos e entender o oceano que aquela pessoa nadou pra ser íntegra, generosa e presente nos seus afetos. Porque essa é a balança do século e a maioria das pessoas que nos rodeiam nem sequer conheceram o equilíbrio mas não cansam de falar sobre ele. Quando você estiver na presença de alguém que trabalha pra construir uma família saudável e unida, engrandeça esse propósito. Porque eu estou sozinha nesse devaneio, mas sonho que ele seja nosso em breve, e que mais pessoas perguntem “o que você ama fazer?” ao invés de “onde você trabalha?”. Que pais se orgulhem dos filhos por serem pessoas de bom coração, justas e generosas, e não porque se tornaram máquinas de fazer grana, atingiram status social ou são “bem sucedidos” profissionalmente. Que outros chefes de equipes entendam e dêem suporte sem julgamento pra uma mãe de atestado porque o filho adoeceu, ou que ajustem a escala pra proporcionar presença em casa praquela família. Gente humana, que se cansa de ter pra si e ver o outro se afundando.
O que te sobra quando você não é mais definido pelo seu trabalho? Que valor você tem pro mundo? Que tipo de pessoa você vira se troca ganhar muito e sofrer, por ganhar pouco e ter paz? Quem é você que não tem vergonha de admitir que prefere buscar seu filho no inglês a fazer uma reunião? (Vamos ser amigas?) Quem são as pessoas que sem vergonha alguma na cara, passam a família na frente de tudo? Onde eu encontro quem reconheça o valor de uma vida vivida inteira pros seus do que pro palco do outro? Como eu posso me celebrar sem vergonha de ser a mulher que eu desejei ser por muito tempo e não tive como? Que estranho é ter finalmente um propósito que não se enquadra em enriquecer mas sim em servir. Servir pra engrandecer a vida dos meus e não pra enriquecer poucos. Que angústia não preencher meus dias com ideias, processos, orçamento, e correria, porque tudo que sei sobre mim mesma é fruto de anos sendo uma mulher implacável. Quem vai me dar o mérito por fazer o caminho mais longo de volta pra casa? Eu mesma.
Feliz dia das mães adiantado, pra você que brilha no silêncio, navega o invisível e mesmo sem reconhecimento se debruça no prazer e na dor de construir uma família sólida, amorosa e unida. Seu prêmio não cabe em post do instagram e eu enxergo cada dedicação sua, mesmo sem te conhecer.
Mas nada disso é real, não passa de um devaneio.
Te indico de olhos e ouvidos bem abertos
Pra ler
Lutas e metamorfoses de uma mulher, do Édouard Louis.
Ele conta a história da própria mãe. Uma mulher que viveu anos presa em um ciclo de violência, submissão e alcoolismo, até que um dia rompe. Vai embora. E nesse ir embora, começa a tentativa nada linear de se reconstruir.
O que mais me pegou não foi só a história dela, mas o olhar dele. O jeito como ele revisita essa mãe com mais maturidade, tentando entender quem ela foi, quem ela é, e tudo que existiu no meio disso. Tem dor, tem distância, tem julgamento, mas também tem uma tentativa muito bonita de reencontro.
Porque no fim, talvez seja isso: nossas mães também são mulheres em processo. Também passam por queimadas internas, também se perdem, também tentam renascer com o que dá.
E a gente cresce achando que elas são chão firme, mas esquece que esse chão também já foi e talvez ainda seja terra em reconstrução.
Ler esse livro foi, de alguma forma, olhar pra minha própria história com mais generosidade.
Pra ver
Pra acompanhar esse texto, escolhi o trabalho da Caroline Walker. Todas as ilustrações são telas dela.
Ela pinta mulheres, mas não do jeito idealizado que a gente tá acostumada a ver. O que ela faz é quase um gesto de cuidado: observa, demora, registra o que normalmente passa despercebido.
Suas pinturas são minuciosas, silenciosas. Mostram cenas íntimas: uma mãe amamentando, alguém arrumando a casa, um corpo cansado atravessado pela rotina. Momentos que não foram feitos pra serem vistos, mas que ela transforma em imagem com uma delicadeza quase documental em óleo sobre a tela.
O que me atravessa no trabalho dela é isso: ela dá forma ao invisível. Ao trabalho não dito, ao cuidado repetido, à exaustão invisível. Ela pinta o que sustenta o mundo e que quase ninguém olha.
E talvez por isso faça tanto sentido aqui. Porque ser mãe também é isso: uma sucessão de gestos pequenos, intensos, invisíveis, mas que, vistos de perto, são tudo. <3








"Você precisa moldar a sua cabeça pra percepção do outro pra além do papel dele no sistema. Você precisa olhar no fundo dos olhos e entender o oceano que aquela pessoa nadou pra ser íntegra, generosa e presente nos seus afetos"
Precisamos urgentemente mudar essa percepção. O mundo esta doente, estamos todos doentes por tanta demanda e esquecendo do que realmente importa: Viver no bem e pelo bem
Parabens pelo texto maravilhoso. Quanta lucidez !!!
Texto primoroso!
Este trecho da análise das obras me tocou:
Porque no fim, talvez seja isso: nossas mães também são mulheres em processo. Também passam por queimadas internas, também se perdem, também tentam renascer com o que dá.
E a gente cresce achando que elas são chão firme, mas esquece que esse chão também já foi e talvez ainda seja terra em reconstrução".